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Porque é que os pais não sabem responder a todas as perguntas?

Encontrei este texto maravilhoso, genuíno e repleto de sabedorias no surpreendente e bem humorado livro “Trocado por miúdos” que ando a ler, em formato tradicional (papel e em português), coisa (muito) rara por este lados 🙂
Porque é que os pais não sabem responder a todas as perguntas?
“Em primeiro lugar, porque as perguntas são muitas e nem todas têm resposta. Essa é a verdade. Mas também pouco interessa, porque mais importante é saber perguntar. E, a seguir, saber procurar a resposta à questão que se formulou.
Tive um amigo que todos os dias fazia um exercício de humildade: pegava num objeto e interrogava-se como tinha sido feito, com que material, em perguntas cada vez mais difíceis até não saber a resposta. Nesse ponto, parava e ia estudar. Desta forma, aprendia todos os dias uma coisa nova. Um exemplo:

Pergunta: Este objeto é um …?
Resposta: Copo.
Pergunta: O copo é feito de …?
Resposta: Vidro.
Pergunta: De onde vem o vidro …?
Resposta: Do aquecimento a alta temperatura de sílica, que se encontra na areia.
Pergunta: De onde vem a areia?
E assim sucessivamente …

Não sei se toda a gente tem alguém que admire muito. Eu tenho e chamava-se Richard Feynman. este senhor era um físico que trabalhou com Einstein e que ganhou o prémio Nobel. Além disso, era muito divertido. Viveu no Brasil, onde tocava pandeireta numa escola de samba e se mascarava no Carnaval, coisas que achamos que os cientistas importantes nunca fazem. Escreveu um livro onde disse que, nesse tempo, até bebia de mais, mas parou porque estava a estragar a sua máquina de perguntas, que era o cérebro. Uma vez ele disse uma coisa memorável “Ser cientista é acreditar que os especialistas são ignorantes!” O que ele queria dizer é que nunca devemos considerar uma resposta como sendo definitiva, porque o tempo poderá vir a mostrar que estamos equivocados. Assim, mesmo aqueles que julgamos que sabem tudo poderão estar enganados.
Vivi muitos anos em Nova Iorque, que é uma cidade onde toda a gente faz perguntas e procura respostas. Quando acabei o meu curso de Medicina, o professor mais importante disse-me uma coisa extraordinária: “Metade do que te ensinámos é mentira, mas eu tenho um problema: não sei que metade é essa!” A lição é, mais uma vez, a de que nunca ninguém pode afirmar com toda a segurança que tem a resposta correta, mas todos devemos ir à procura dela. Se calhar, é mais importante fazer a pergunta certa do que saber muitas coisas.
Fico muito contente quando alguém afirma exatamente o contrário do que eu acredito saber. Pode parecer estranho, mas não é. Se essa pessoa tiver razão, eu aprendi uma coisa nova e fico mais rico, não em dinheiro mas em conhecimento ou sabedoria.
A propósito: a sabedoria é mais importante que o conhecimento. A Internet está repleta de conhecimento ou informação, mas não tem sabedoria, pois a sabedoria depende de aplicar o que se sabe de acordo com as circunstâncias e, depois, de pesar muito bem na nossa cabeça qual a informação mais importante. Há quem acredite que a sabedoria só chega depois de termos feito um número razoável de disparates, o que nos leva a outro ponto: não saber ou fazer mal é o primeiro passo para se saber ou fazer bem.
O meu pai dizia-me muitas vezes que a experiência é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece. Ele queria que aprendesse com as asneiras, que é uma boa maneira de aprender quando elas não são muito graves.
Os pais que não sabem tudo são os melhores, porque são os que ainda querem aprender, e, por isso estão mais perto das crianças. Tenho duas filhas pequenas, apesar de já ter quase sessenta anos. Uma delas espantou-se de eu ser o pai mais velho de todos os pais da turma dela. A mais nova explicou-lhe que isso não tinha importância, porque eu tinha a “memória de infância”. Ela queria dizer que eu me lembrava de como era em criança, e quem se lembra de como era em criança não envelhece. Eu acho que ela tem razão, e é uma boa resposta à pergunta: a partir de que idade se é velho? A resposta que ela deu foi: quando deixamos de nos lembrar como é ser criança.
   Vemos assim que o conhecimento se veste de roupas diferentes. Pode-se saber fazer contas, que é uma coisa que se faz com a cabeça, e às vezes com a ajuda dos dedos. Mas também se pode conhecer com o coração, que é o que acontece quando perguntamos a alguém: “Estás triste?”, intuímos logo a resposta, porque é o coração que percebe essas coisas.
Não tem importância se um pai não sabe todas as resposta das cabeça, porque conhece de certeza todas as respostas que são dadas com o coração. Eu, pelo menos, acho que é assim. E sei que não estou enganado.”                                                                                                                                  Nuno Lobo Antunes 
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