Com papas e bolos, se enganam os tolos

Carinha laroca, alto, espadaúdo, emana confiança, envergando o seu ar trocista e andar gingão, consciente das suas capacidades, mente perspicaz e poder da argumentação,Charge2013-violencia_escolar-726113considera-se invencível. “Vão-me mandando de uma escola para a outra, não me querem em nenhuma. Nem eu, não aprendo nada de jeito na escola!” afirma orgulhoso, aos 14 anos e pela 2ª vez no 7ºano. Os seus interesses são vários, e não se escusa em partilhá-los com colegas e professores, tem uma agenda muito própria e uma fama que importa manter. Os seus roubos, efetuados à  hora do almoço, no supermercado junto à escola, são o tema predileto nas aulas de início de tarde, passando, rapidamente, para os telemóveis e Playstation, de vários modelos, disponíveis para “troca”, frutos de outras colheitas de horas mais oportunas. Aceita encomendas e compromete-se a realizar a entrega rápida e eficazmente. As suas preocupações mais prementes são angariar clientes ou cúmplices para uma nova patifaria; as aulas são um sítio, tão bom como outro qualquer, para definir estratégias e planos de ataque. Visitas à esquadra, diz terem sido várias mas “Como ainda não tenho 16 anos, não me podem fazer nada. E provas que fui eu, onde é que as têm?! Uns palhaços, é o que é!”. Entre os pingos de chuva, vai passando incólume, forjando o seu plano de vida “Ser podre de rico e não fazer nenhum!”.

Líder nato e inquestionável, quando não lhe agrada a matéria, o professor ou tem coisas a tratar ou etc., o que se verifica quase sempre, mina o ambiente, amedronta alguns colegas, professores e funcionários para levar a sua avante: vontade de sua excelência deve ser impreterivelmente obedecida. Rapidamente, se torna presença assídua na Direção, onde, segundo diz, é tratado como um senhor: sentado numa poltrona, é brindado com “uma valente seca do cota mas dão-me bolos, salames e gomas”, provavelmente, para digerir melhor a conversa.

As participações disciplinares avolumam-se, avizinha-se uma suspensão de 5 dias. O Encarregado de Educação, chamado à escola, apresenta-se furioso na portaria “Quero falar com a mulher que toma conta da turma dele.”, confrontado com a resposta “Aqui na escola temos vários tipos: as professoras, as funcionárias e as alunas. Com qual delas quer falar e qual é a turma?”, de imediato, voltando-se para o filho, inquire “Olha lá, ó meu estúpido, qual é a tua turma e como é que se chama a tal mulher?”. Observando os pais, depressa nos apercebemos que, por vezes, muito bons são os filhos!

Na iminência da sua suspensão, desejoso de um verdadeiro confronto de titãs, para fazer o gostinho ao dedo, agitar as águas e libertar alguma da sua raiva e frustração, entra na sala de aula, com um ar ameaçador, dirige-se, com passadas largas, à secretária do professor, bramindo e empunhando um pau de vassoura “Só vejo o seu nome nas participações disciplinares, são quase todas suas! Porquê? A sua é uma das aulas onde me porto melhor!”, não lhe agrada a resposta obtida “Se assim é, nem quero imaginar como se porta nas restantes aulas!”. Os seus olhos chispam e o pau de vassoura abate-se violenta e estrondosamente sobre a secretária vazia em frente ao professor. Começa a espiral: soa a recusa retumbante em abandonar a sala de aula face à ordem proferida, surge o repto do professor “Ou sai ou chamo a polícia já! Está a ameaçar a integridade física de todos os presentes!”. Intuitivamente, percebeu que a intimidação não resultara, tinha à sua frente alguém que não o temia, ou pelo menos não o aparentava. Recuou, furioso, atirando para um canto da sala, o pau de vassoura, e rumou à Direção acompanhado por uma funcionária receosa face à sua incumbência.

A aula prosseguiu, num silêncio sepulcral, quebrado, 10 minutos mais tarde, pela funcionária: “O doutor já conversou com ele e mandou-o regressar à sala!”. Trocam-se olhares e murmúrios, a incredulidade e espanto presente em todos e cada um, fitados por um par de olhos brilhantes que emanam satisfação e triunfo. Aproveitando o torpor e estupefação geral, entrou rapidamente em ação, agarrando, num ápice, o pau de vassoura que ainda se encontrava onde o deixara. “Pouse o pau de vassoura onde estava, já! Nesta sala, hoje, não entra! Deve um pedido de desculpas a todos e não só …”. Atirando o pau de vassoura para um canto, contrariado, a sua resposta mordaz e desafiadora, não se faz esperar “Foi o Diretor que mandou, só tem que obedecer”. A plateia hesita, dividida, mas ulula “Pois … se o diretor mandou!”. O seu poder pulsa e cresce, o ar triunfal espelha-se no seu rosto, sorriso aberto e trocista, perante o seu “xeque-mate”. “Se o senhor entra, eu SAIO! Não me interessa o que lhe disseram na Direção. O que fez, e persiste em fazer é demasiado grave, é crime.” diz o professor, começando, sem hesitações, a arrumar a sua pasta para abandonar a sala, perante o olhar abismado dos presente. A funcionária olha, alternadamente, para o professor e para o líder, “Pronto, pronto, não é preciso ficar assim! Não se irrite! Eu saio, eu saio, ora essa! Fui!”. Todos soltam a respiração que não sabiam estar a conter e a aula prossegue sem mais percalços, assim como todas as seguintes!

Tempos antes, o Diretor tinha sido chamado a um corredor onde o “petiz” andava a provocar desacatos, a reprimenda não foi do seu agrado e não hesitou: deu um valente encontrão ao Diretor e chamou-lhe vários nomes feios. À frente de uma plateia expectante e delirante, o Diretor abandonou a cena cabisbaixo e vencido, não havendo lugar a punições. Naquele dia, perdeu o respeito de muitos. Até então, este tipo de “problema” passavam-se a anos-luz do conforto do seu gabinete, ouvia os vários relatos dos “problemas” dos outros mas remetia para a falta de “habilidade” de alguns em lidar com este tipo de jovens, tinha sempre conselhos e estratégias para partilhar! Ah … da teoria à prática, do narrado ao sentido, a realidade dura e crua, sem filtros, e o cair por terra de tantas e tantas teorias. Sem rei nem roque… nunca mais se ouviu dizer que recebesse com bolos e salames quem afronta, quando lhe apraz, a autoridade de tudo e de todos.

(O meu novo devaneio no blogue Com Regras. Aconteceu numa das minhas aulas quando estava “gravidérrima” da pimpolha mais nova. Foi um ano cheio de vivências e experiências … diferentes!)

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