Estado

Fazer a diferença

Cigarro na ponta dos dedos, descontraído, sorri aparentando não ter uma única preocupação, próprio de quem tem todo o tempo do mundo, e cumprimenta, junto ao portão da escola, um antigo professoDSCN1477r. Um “cota”, nas suas palavras, de quem até nem gostava muito mas que tentou, sem êxito, ensinar-lhe qualquer coisa, dois ou três anos atrás, que ele já não se lembra bem o quê. O professor, procurando aliviar um pouco da pressão de mais um dia difícil, cede ao vício, que vezes sem conta já tentou abandonar, sem sucesso, dizem os entendidos, devido ao stress. Lado a lado, esfumaçando, professor e aluno, decidem entabular conversa: o aluno que não gostava particularmente daquele professor, aliás, como todos os outros, era-lhe completamente indiferente; e o professor que nunca sentira grande empatia com aquele aluno, muito pelo contrário; mas o dia estava solarengo e convidativo.

Não o surpreendeu quando o aluno lhe revelou que provavelmente iria repetir, pela 3ª vez, o 10ºano; à sua memória afloraram vários episódios, passados nas suas aulas, bastante reveladores da forma como este encarava a Escola, em particular aquela; nada na sua visão da escola parecia ter mudado desde então. Espicaçou-o: que não deveria/poderia continuar assim, perpetuando o mesmo erro, ano após ano, quase à beira de atingir a maioridade. Desafiou-o a indicar duas ou três coisas que realmente gostasse de fazer, que lhe dessem alento e motivação, sentiu a hesitação, muita, típica de quem sabe e não deseja partilhar. Insistiu e a revelação surge num sussurro envergonhado e receoso, o olhar implorando que não o criticasse ou se risse: o que lhe dava prazer e gostava mesmo de fazer era cozinhar, queria ser cozinheiro! Não partilhara com ninguém este seu desejo: os amigos gozariam consigo e rejeitá-lo-iam, os seus pais, há muito que não sabiam o que fazer, nem como conversar com ele, evitavam falar de escola, calculava que desde que fizesse alguma coisa da sua vida, ficariam contentes.

Colocando o seu ar mais despreocupado, acende mais um cigarro, enquanto procura mudar o rumo da conversa, fingindo que nada de importância tivesse sido revelado, esperando que o professor lhe seguisse os passos e deixasse o assunto cair no esquecimento: a solução mais fácil e confortável para ambos. A pergunta foi simples e direta, apanhando-o desprevenido: “Estás disposto a tentar, arriscar e a trabalhar para conseguires vir a ser cozinheiro?”. Anuiu, desconfiado, quando o professor lhe comunicou que se estivesse realmente disposto, iriam naquele momento, no seu carro, a uma escola profissional, a duas dezenas de quilómetros, onde poderia dar asas ao seu desejo se assim o entendesse e estivesse dispostos a colocar os seus receios de lado. Mais tarde, regressaram à escola, com uma mão cheia de informações e uma pré-inscrição preenchida. O ano letivo estava a terminar e os seus caminhos não se voltaram a cruzar.

Nos anos seguintes, o professor passou por várias escolas, muitas centenas de alunos preencheram-lhe os dias e as horas; não voltou a pensar neste aluno, na conversa que haviam tido e qual teria sido o seu desfecho. Até ao dia, vários anos depois, que recebe um telefonema desta sua antiga escola, informando-o que um antigo aluno estava, insistentemente, a contactá-los solicitando o seu número de telefone. Face às sucessivas recusas, por parte da escola, em disponibilizar o número do professor, o aluno pediu, encarecidamente, que fosse, então, a escola a entrar em contacto com o professor e lhe facultasse o seu número de telefone, transmitindo-lhe, em seu nome pessoal, a sua necessidade/desejo de falar com ele. Número de telefone na mão, o professor hesitou por breves momentos: o nome trazia-lhe algumas recordações embora não conseguisse associar-lhe uma cara ou situação, pensou nos esforços encetados pelo aluno e, sem mais, deu por si a marcar o número. Ao identificar-se, expectante, ouve do outro lado “Professor, finalmente, consegui falar consigo! Queria agradecer-lhe pessoalmente. Lembra-se daquela conversa que tivemos à porta da escola, há uns anos atrás, a pré-inscrição e a escola que me apresentou? Mudaram a minha vida, devo-lhe muito. Queria convidá-lo para o primeiro jantar “oficial” que vou servir, depois da conclusão do curso! Gostava muito que viesse e de lhe agradecer pessoalmente!”. Impossível recusar o agradecimento sincero de alguém que irradia felicidade perante a concretização de um sonho, o reconhecimento do pequeno papel de quem apenas o incentivou a procurar caminhos alternativos e a tomar o futuro nas suas mãos, e a amabilidade de um convite para partilhar do seu mundo recém-conquistado. Por vezes, marcamos e fazemos a diferença, em gestos simples, como a disponibilidade para escutar, com os ouvidos e o coração, procurando soluções, centradas no mundo do outro e não no nosso… algo que vai muito além dos conteúdos e das aulas partilhadas.

Texto de minha autoria publicado no blogue ComRegras

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