Livros invisíveis?

Ao contrário do que muitos julgam, os alunos mais cativantes/interessantes nem sempre são os que têm excelentes/boas notas ou um comportamento 5 estrelas ou um caderno impecável ou que fazem todos os TPC e tarefas propostas e dizem “amén” a tudo o que o professor diz e faz. Não desvalorizando os anteriores, os que me obrigam a modificar o curso da aula e a tomar um rumo diferente do planeado face às suas perguntas desafiantes, aos seus comentários engraçados e pertinente, os que têm um pensamento divergente e não hesitam em partilhá-lo e explanar as suas ideias, defendendo com unhas e dentes a sua estratégia mesmo quando, por vezes, ela é rebatida ponto por ponto, procurando em cada etapa, saber o porquê de não ser assim, os que me fazem rir, os que verdadeiramente, partilham comigo a viagem, esses sim, são os que realmente me cativam. Mais do que ser brilhante, importa ser feliz, gostar de aprender, questionar, pensar e não aceitar passivamente o que é debitado, abrir/procurar caminhos diferentes dos apontados, ter sentido crítico e de oportunidade. Por isso, tal como Eduardo Sá, descreve no texto em baixo, são estes que me enchem as medidas, os que me fazem andar em bicos dos pés, procurando chegar mais alto, vislumbrando novos e diferentes caminhos, seguindo os fios de pensamento e os meandros dos seus livros invisíveis…nem sempre é fácil, nem produtivo mas é uma viagem que vale quase sempre a pena fazer!

“Eu gosto das crianças que se divertem quando um professor se engasga com as suas perguntas. Sobretudo quando se trata de alguém que elas adoram e que respeitam. E que, até na forma como se engana, é justo, atento e delicado.

E gosto daquelas crianças que perguntam “porquê?”. E são aborrecidas e insistentes. E não desistem senão quando são esclarecidas. Nem que, para tanto, sejam trapalhonas na forma como dizem: “Ó professora?!…” E se cansam tanto de levantar o dedo que com um braço agarram o outro para que nunca desistam de fazer mais uma pergunta.
E gosto das crianças que são “cabeças no ar” e que, sempre que um professor está num dia enfadonho, se “retiram” das aulas e “falam com os botões” ou se passeiam pela imaginação. E das que são acutilantes e, mal “um alfinete” cai e se estatela na sala de aula, param e espicaçam quem pareça distraído para os pormenores com que o mundo mostra que palpita.
E gosto das crianças que cochicham, que olham para o lado e se divertem. E daquelas que precisam de ser advertidas, de vez em quando, porque estão na sala de aula com a mesma “alma aberta” com que brincam em casa, todos os dias. E das crianças que põem dúvidas e insistem nelas, muitas vezes. E que, de cada vez que as colocam, põem em dúvida a sabedoria do professor a quem se querem assemelhar. E gosto das crianças que distinguem ver de observar e ouvir de escutar. Daquelas que ligam as matérias só depois de as costurarem com tantas perguntas que parecem aprender quase sem memória.
E gosto das crianças que chegam à escola e falam da casa, dos pais e dos irmãos, e com as suas histórias fazem duma turma uma mão cheia de pessoas da família. E das que não gostam de trabalhar mas que gostam de aprender. E, sempre que haja quem lhes desperte uma paixão, são insistentes nos comentários e determinadas na procura.
Gosto das crianças curiosas. Daquelas que têm “a vista na ponta dos dedos” e, sendo “mexelhonas” e “abelhudas”, são afoitas, engenhosas e leais no modo como aprendem. E das crianças que, de tão intuitivas, distinguem acumular conhecimentos e estimar a sabedoria. E exigem que a escola lhes dê “segredos” e “feitiços” para que liguem aquilo com que aprendem às pessoas com as quais se chega à felicidade.
Gosto das crianças que são mestres na arte de descobrir. Para quem aprender é fazer com que o desconhecido faça parte família. Daquelas que cobiçam e que batalham. E, mesmo magoadas, têm garra e genica e parecem indomáveis na forma como vão atrás de uma paixão.
E gosto das crianças que, “lá no fundo”, se perguntam onde ficam as suas “memórias de aluno” nas aulas de cada professor. Das que se insubordinam contra todos aqueles que lhes vaticinam não ter futuro. Sobretudo aquelas crianças que não sabem como acreditar no futuro quando os pais, depois de os compararem, elogiam, sobretudo, os professores que eles tiveram no passado, e as escolas, depois de exagerarem na forma como falam dele, acreditam que o futuro parece estar sempre longe demais.
E gosto das crianças que esperam que a escola as torne um bocadinho “ignorantes”, tal é a sabedoria com que as enche. Daquelas que não repetem mas que recriam. E que já perceberam que por trás de cada aluno que a abandona está uma escola que, por distração, já terá abandonado demasiados alunos, muitas vezes.
E gosto das crianças que já não suportam todos aqueles que falam da sua “falta de bases” em vez de cuidarem da sua própria “falta de horizontes”. E daquelas que são contra as “orelhas de burro”, com que se humilhavam as crianças que não seriam, supostamente, inteligentes. E que, por isso, talvez não amem o modo como, por vezes, se “condecoram” alguns alunos com “mérito” e com “excelência” – no meio das infelicíssimas festas de “finalistas”, onde se distinguem as boas notas, independentemente do modo como são conquistadas – e se premeiam todos os outros meninos com a mágoa e com a vergonha.
E gosto daquelas crianças que, num mundo de pessoas que fogem de pensar, parecem fugir à norma (pensando pelas suas cabeças) com que aqueles que não pensam nos falam do progresso.
E gosto das crianças que nunca veem o caminho, porque se interessam, unicamente, com as pessoas que lhes esticam as mãos e as ajudam quando o percorrem.
E gosto de todos os meninos que que são “apanhadores de histórias”. Daqueles que, quando o professor tem o coração ao pé dos olhos, se confessam a ele e acreditam naqueles que acreditam em si.
Mas quem não gosta das crianças que amam as escolas que as “desmancham”? Ninguém, seguramente! Essas sim, são escolas especiais! Porque derrubam um “lado sabichão” que algumas crianças têm para as reinventarem, de seguida, a partir daquilo que elas não sabem, sequer, que desconhecem. E são especiais quando tratam todos os meninos como viajantes e os acolhem como hóspedes preciosos, cujas histórias, todas juntas – em conjunto com o coração de um professor – fazem longos livros invisíveis com os quais se aprende a ver e a sentir, a imaginar e a pensar. As escolas amigas dos livros invisíveis! Aquelas, em relação às quais, se sabe sempre quando as aulas começam mas, por causa deles, não têm, seguramente, nunca mais, fim!

Eduardo Sá (retirado daqui?)

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