Nota

Uma (boa) explicação

Há uma/duas décadas, as explicações eram um fenómeno: dada a oferta diminuta, os preços praticados eram, regra geral, exorbitantes, não estando ao alcance da maioria. Sem alternativa, havia que prestar atenção ao professor e recorrer ao espírito de interajuda entre colegas, estudando e esclarecendo dúvidas em grupo, onde todos, ou quase, reconheciam a importância, e a necessidade, do trabalho individual e autónomo para alcançar (um bom) aproveitamento.

Face ao desemprego na classe docente, a um aumento da disponibilidade financeira das famílias, geralmente, inversamente proporcional ao tempo que dispõem para a acompanhar, as explicações tornaram-se, na última década, o fenómeno, o que antes era uma exceção, passou a ser regra, proliferam os centros de explicações e as explicações particulares (uma fonte de rendimento para quem está no desemprego ou um extra para quem está congelado ad aeternum).

Para muitos pais e alunos, as explicações parecem ser a solução fácil para os problemas de aproveitamento e a sua fé nesta crença é inabalável. Consoante a crença, há para todos os gostos: individual, a pares ou em pequenos grupos, de uma ou de várias disciplinas, de uma hora, de hora e meia, de duas horas, ou o tempo que for necessário se o caso for urgente e/ou o teste estiver à porta. O mais difícil parece ser conciliar horários, tamanha é a sobrecarga de atividades mas fazendo alguma “ginástica” tudo se resolve.

Curiosamente, cada vez mais cedo, os alunos/pais recorrem a explicações, começando, por vezes, no 1º ciclo. Correndo o risco de criar, desde cedo, na criança, a ideia que sozinha não é capaz, quando a maioria, felizmente, o é, precisando para isso apenas de se concentrar, empenhar e PENSAR. Este é um processo evolutivo que nem sempre é fácil mas é essencial e deve/tem de ser estimulado para que mais tarde se tornem jovens confiantes e autónomos.

O aluno que, por sua iniciativa e não dos seus pais, tem como objetivo e vontade superar as suas dificuldades e melhorar o seu aproveitamento, regra geral, sabe que uma explicação nunca poderá substituir as aulas, muito longe disso, encara-a como um complemento das mesmas, reconhece ainda o papel e a importância do seu trabalho individual e autónomo para maximizar o seu rendimento, vê a explicação como um espaço onde pode esclarecer dúvidas da aula ou conteúdos onde tem mais dificuldades, onde há alguém centrado apenas em si, e não em 30 alunos, que orienta e supervisiona o seu trabalho individual, corrigindo as suas pequenas lacunas, realçando pormenores, que lhe escaparam na aula, e clarificando e esclarecendo de imediato qualquer questão. Para este tipo de alunos uma (boa) explicação é benéfica e proveitosa, alicerçando o seu conhecimento e segurança na aprendizagem.

Uma explicação é um desperdício de tempo, e dinheiro, para todos aqueles alunos que nunca tentaram, por via do trabalho individual, superar as suas dificuldades, não (re)conhecendo assim as mesmas e os seus limites. Tendem a encarar a explicação como uma obrigação e não uma mais valia/necessidade, pois afinal tiveram negativa, sabendo, perfeitamente, que não estudaram o suficiente, mas dada a insistência dos seus pais e como, afinal, quase todos os seus colegas também andam em explicações… acham normal e que assim está encontrada a receita para o (seu) sucesso. Na realidade, para este tipo de alunos, uma explicação, para além de não resolver o problema do aproveitamento, pode ainda dar origem a uma espécie de indisciplina discreta e silenciosa, mas muito presente, em sala de aula, que se reflete em atitudes como as seguintes numa tentativa de justificar/desculpar a falta de atenção e trabalho e/ou a conversa e brincadeiras com os colegas: “Não vou fazer isso outra vez. Já fiz na explicação” ou “Não preciso de prestar atenção, a seguir tenho explicação” ou “Já dei isso na explicação e já sei tudo!”, “Faço isso depois. Estou só a fazer o TPC da explicação que tenho a seguir. Logo penso nisso”. Quando as notas dos testes não são do agrado, que é o mais comum, surgem comentários do género “Como é possível? Eu até tenho explicações!”, “Tive 3 horas de explicação, na véspera, do teste. O meu explicador diz que os seus testes são muito difíceis!” O explicador não pode, nem deve ter a pretensão de, substituir o professor, ambos devem trabalhar com um objetivo comum, o sucesso do aluno, sem recriminações ou desculpas, reconhecendo e salientando que independente do trabalho e empenho de ambos, o ator principal é o aluno e sem o seu empenho e dedicação, o trabalho de ambos está condenado, à partida, ao insucesso.

Milagres não há! Ao contrário do que muitos alunos e pais pensam, sem empenho e sem trabalho nada se consegue, e uma explicação não resolve, nem é esse o seu objetivo, esta, que é talvez a principal, lacuna que condiciona o sucesso dos alunos.

Nota:

Muitos dos pais, talvez a maioria, tem um horário de trabalho que não se coaduna com o horário escolar, não tendo qualquer tipo de apoio familiar (avós, etc.), acaba por optar, por uma questão de segurança e comodidade, por colocar os filhos num centro de estudos/explicações. Se é o ideal? Com certeza que não, mas é a solução que consideram mais adequada/segura tendo em conta os tempos que vivemos e a alternativa de deixar os filhos, em idades precoces, entregues a si próprios, sozinhos ou na companhia de amigos. É compreensível que considerem a nova proposta do Ministério da escola das 8h30 às 19h30, até ao 9ºano, aliciante. Será benéfico e aconselhável para os alunos? A generalidade dos professores e alunos dirá que não, mas tendo em conta a agressividade e exigência do mercado de trabalho em que os pais estão inseridos, esta proposta procura responder a uma necessidade social, à qual alguns felizardos não precisam de recorrer, mas que não deixa de existir e, infelizmente, é e será uma realidade para muitos, enquanto as leis laborais não permitirem, incentivarem e contemplarem o direito ao devido acompanhamento familiar. Neste contexto, o que será preferível e mais benéfico? Passar o tempo à espera dos pais, num centro de explicações, onde uma mescla de miúdos de várias idades e feitios convivem, numa pequena área, realizando TPC, fichas, tendo explicações/apoio ao estudo de tudo um pouco ou ter como alternativa a possibilidade de permanecer na escola a desenvolver outro tipo de atividades mais lúdicas e apelativas? As escolas, na generalidade, têm ótimas infraestruturas e condições físicas para o desenvolvimento de outro tipo de atividades interessantes e variadas, num âmbito diferente das atividades do período letivo, basta para isso haver vontade, disponibilidade, verbas, uma boa gestão/implementação e contratar/recorrer a profissionais qualificados, motivados e com perfil para as funções a desempenhar.

Mais um devaneio meu no blogue ComRegras

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