Nota

Falando …

Pimpolha mais velha utiliza, bem, mas amiúde, os pronomes possessivos, e os manos começam a seguir-lhe as pisadas, “A J. trouxe o seu livro para a escola e a sua mãe ficou chateada!”, acho piada a este “formalismo” em gente tão pequena!

Não resisto a sorrir, sempre que alguém se refere a si próprio na 3ª pessoa, e recordo a mim mesma a importância da “distância” para ver o mundo de outra perspetiva, estas pessoas sentem isto de uma forma muito pessoal, certamente!

Anúncios
Estado

Assustador!

“Não me interessa se o meu filho sabe ler bem ou fazer contas, eu quero é que ele seja feliz!” observação de uma mãe para justificar a sua falta de “empatia” com a professora do seu petiz, rigorosa e ríspida! Já o facto do professor não adotar o método mais adequado, não ser exigente e/ou os seus petizes não terem as aprendizagens elementares bem consolidadas, não os preocupa nada, afinal, a curto prazo os seus petizes parecem felizes, é o que importa. Este tipo de pais minam e proliferam na escola. Curiosamente, ou não, os seus petizes são os que apresentam, frequentemente, um comportamento inadequado, prejudicando tudo e todos, eles e os seus queridos pais. Sem pachorra, para aturar e argumentar com esta malta, na qualidade de mãe, na de professora, não lhes dou hipótese!

Hour of Code

Passam horas a jogar sozinhos ou on line contra amigos e colegas mas quando os desafiam/convidam a conhecer o que está por detrás do jogo, a experimentarem a aprender a programar, a sua reação é reveladora “Ah, isso é uma seca! Qual é que é o prémio se ganharmos?” O quê? Só 15 €? Devem estar a brincar!”. Foi esta a reação com que uma das minhas turmas me brindou quando li o aviso que dava a conhecer o Hour of Code, o seu funcionamento e o processo de inscrição. Fiquei pi ursa, até porque não conhecia e ao ler o aviso pareceu-me muito interessante. Dei-lhes um valente sermão sobre a sua atitude de saber “ler” as novas tecnologias mas não saber “escrever”, que o prémio é o menos importante, a aprendizagem conquistada é o que prevalece e o que realmente deviam ter em mente; foi de tal ordem que a funcionária, que permaneceu na sala enquanto eu lia o aviso e lhes pregava o sermão, no final comentou “Foi um valente puxão de orelhas mas eles realmente, às vezes, precisam de alguém que lhes abra os olhos!”.

Ao contrário destes meus alunos, fiquei curiosa, anotei o link do site da iniciativa, e assim que tive um tempo livre fui espreitar. Adorei, completei uns quantos tutoriais, constatando que princípio era muito semelhante ao Scratch, no qual fiz um pequena formação há uns anos, mas mais elementar. De seguida, chamei a pequenada da casa para experimentar e o entusiasmo foi total, experimentaram a hora de código com o Frozen, o Minecraft, o Starwars, o Flappy bird e alguns tutoriais. O entusiasmo mantém-se sempre que lhes perguntamos se querem ir programar e, muitas vezes, são eles que pedem 🙂

Bem, de volta à escola, uns dias depois, tive que ler o mesmo aviso numa outra turma que, felizmente, para seu bem, não fez qualquer comentário. Decidi tentar a sorte, esperando não me aborrecer, e no intervalo  mostrei-lhes o tutorial do Minecraft, gostaram, aguçou-lhes a curiosidade e o espírito e alguém sugeriu “Podíamos fazer isto na última aula do período, que acha professora?”. Todos concordaram e eu aplaudi interiormente, pensando nem tudo está perdido e, às vezes, vale a pena investir um pouco do nosso tempo e mostrar-lhe um “outro mundo” que por sua iniciativa não explorariam. O prometido é devido e a última aula do 1º período, desta turma, foi a “programar” e divertimo-nos à brava!

Aprendendo desde tenra idade a programar, a criança desenvolve a capacidade de abstração, aprende a importância de definir uma estratégia para a resolução de um problema, estimula o raciocínio lógico e a não desistir, aprendendo pelo método de tentativa/erro (um artigo interessante sobre o tema).

Imagem

Curioso …

mas há sempre quem prefira a geometria hiperbólica, a geometria das “superfícies curvas”, que desafia a geometria euclidiana e nos mostra que afinal, afinal …PUFFFFF , retas paralelas sempre se intersetam, algumas à 20 anos 🙂 Surpreendente, a matemática com as suas (im)possibilidades e indeterminações!

Estado

Telemóvel, um vício???

“Para conseguir estudar e concentrar-me, desligo o telemóvel e fecho-o numa gaveta à chave, dando a chave a outra pessoa. Se não o fizer, ao ouvir os plimmm, tenho sempre a tentação de ver quem é que escreveu ou partilhou mais qualquer coisa e ele está sempre a fazer Plimmm. Está a ser difícil resistir à tentação mas estou a conseguir. Os resultados, pelo menos, melhoraram ” afirmação/constatação de uma aluna de 10ºano.

Revela uma maturidade que muitos adultos não parecem ter, reconhece, palavras suas, o “seu vício”, demonstrando iniciativa, força de vontade e um autocontrole dignos de louvor.

Desconcentração nas aulas, falta de interesse, dificuldades em compreender os conteúdos? Telemóvel no bolso, ou na mochila, colocada estrategicamente em cima da mesa, e é vê-los concentrados a acompanhar sem dificuldades, discretamente, tantas outras coisas! Nos intervalos, é observá-los a jogar freneticamente, e a partilhar dicas, e/ou a consultar coisas e cenas que alguém postou. Em vez do saudável convívio, 2 dedos de conversa, com quem está ali mesmo ao seu lado, passam o intervalo com o telemóvel. Às vezes as aulas, na impossibilidade de utilização do telemóvel, parecem representar o seu verdadeiro momento de convívio/conversa, aula e intervalo trocando de papéis?

Estado

Os livros, as tecnologias e a educação.

Aconteceu, por uma questão de horário e de na mala não haver espaço para mais nada, chegar à aula com 4 livros na mão, acabadinhos de requisitar na biblioteca da escola. No final da aula, há sempre 3 ou 4 alunos que ficam porque têm dúvidas, porque ainda não acabaram de fazer ou passar o exercício ou apenas para dar 2 ou 3 dedos de conversa. Verificou-se a última situação, “A professora também vai à biblioteca!” ao olhar para alguns títulos exclama outo aluno “Tantos livros mas alguns devem ser para os seus filhos, certo?”. Confirmei que 3 eram para a pimpolha mais velha que gostava muito de ler “Quantos anos é que ela tem e quanto tempo leva ela a ler esses livros todos?” pergunta outro aluno meio desconfiado ao que respondo “Tem 9 anos e, em 1 semana, em princípio, já deve ter lidos os três.” Olham todos para mim com um ar incrédulo “Credo, Professora! Eu, na minha vida de 15 anos, não li tantas páginas como esses 3 livros têm em conjunto!” os restantes exclamaram “Li um pouco mais, mas não muito mais, talvez o dobro ou o triplo!”. Fiquei meio abismada e, o que raramente me acontece, sem saber o que dizer.

Se isto não é muito preocupante e triste, não sei bem como o classifique! Há coisas, muitas, talvez as essenciais, que as novas tecnologias não devem/podem substituir e isto parece estar a passar ao lado de muitos, cegos que andamos com as facilidades e encantos dos gadgets.

Ocorre-me a citação,

os dirigentes de grandes empresas tecnológicas como Yahoo e Facebook matriculam os seus filhos em escolas totalmente isoladas (da modernidade), sem computadores. Com quadros negros, giz e livros, estantes cheias de livros que se podem manusear. Esses já compreenderam.”  retirado daqui.

Cada vez mais, aplico esta máxima, a todo o tempo livre da pequenada da casa, quase sempre livre de gadgets, “obriga-os”, e a mim, a procurar e a explorar outros entretens, que às vezes me dão cabo da paciência: Legos espalhado por todo o lado, quartos transformados em tendas, jogos que nunca mais terminam para se poderem arrumar, desenhos, colagens e recortes por todo o lado, muita interação entre os 3, que inclui gritaria, guerras, mas também muita cumplicidade, livros sempre fora do sítio, ao monte ou em movimento, histórias que inventam e escrevem em folhas que deixam espalhados pela casa! Não sei como será no futuro mas, por agora, parece-me um bom investimento embora, regra geral, a nossa casa pareça um pandemónio e os vizinhos agradecessem, certamente, o sossego e o silêncio proporcionado e típico da utilizaçõ de gadgets e/ouTV… Não se pode ter tudo, há que investir no essencial.

Será? “Filhos teimosos? São os melhores”

“Filhos teimosos? São os melhores” é o título do artigo do Observador, publicado na semana passada, que parecer ter agradado a muitos.  O artigo refere, que segundo os resultado de um estudo publicado recentemente, as crianças que desafiam os pais, que quebram as regras, tendem no futuro a ser mais bem sucedidas profissionalmente e mais bem pagas.

O estudo a que se refere o Observador, foi realizado em duas fases: a 1ª, em 1968,  onde foi analisado o papel do extrato socioeconómico dos pais, as capacidades cognitivas e o comportamento na escola (atenção/concentração, responsabilidade, sentimentos de inferioridade, cumprimento de regras, desafio da autoridade parental, avaliação do professor)  de 745 crianças, com uma média de idades de 12 anos, de ambos os sexos; a 2ª fase, foi realizada em 2008, média de idades 52 anos, e procurou avaliar o sucesso profissional e o nível do salário dos indivíduos. Revelando haver várias relações diretas e indiretas entre as variáveis avaliadas na 1ª fase e na 2ª fase, nomeadamente de quem quebrava as regras e desafiava a autoridade dos pais, em criança, revelou-se um adulto com uma carreia profissional melhor sucedida e melhor recompensado monetariamente.

Esquecendo o estudo e a sua metodologia (onde numa 1ª análise, nem sequer sabemos a importância dada a cada um dos parâmetros mencionados anteriormente) e as suas conclusões: importa saber o seguinte: será que há 40 anos atrás, os pais educavam os filhos da mesma forma que agora? O que era considerado, há 40 anos atrás, desafio da autoridade parental e a quebra de regras seria os mesmo que hoje em dia? Ocorreria com a mesma frequência e em situações idênticas e com reações semelhantes por parte dos pais? Quais eram na altura os padrões de autoridade e com era o relacionamento entre pais e filhos? Como encaravam as crianças o papel da escola? O mercado de trabalho de há 20 anos tinha as mesmas característica que tem agora?

Estas são apenas algumas questões a ter em conta antes de podermos tirar conclusões como a do artigo. O estudo vale o que vale tendo em conta o contexto em que foi realizado, que desconfio que nada tem a ver com o atual.

A cereja no topo do bolo do artigo:

“Estas crianças tendem a fazer o que está certo e não tanto a seguir o que os amigos fazem. Se forem bem guiados pelos pais podem tornar-se bastante motivados e com espírito de liderança. Mas como nem tudo é um mar de rosas, até a recompensa chegar esperam-lhes muitos anos de discussões e de filhos que levam sempre a sua avante.

O segredo? A comunicação. Oiça o ponto de vista do seu filho e até pode encontrar alguma lógica no que ele defende, negoceie e faça cedências. Não vai ser fácil, mas nunca ninguém disse que era fácil educar um futuro rico.”

Filhos que levam sempre a sua avante??? … Nunca ninguém disse que era fácil educar um futuro rico??

E eu a pensar que o difícil é educar um rico filho … perspetivas, ou falta delas!