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Palavras sábias, decisões difíceis

Não me lembro o nome da cadeira que lecionava na faculdade, apenas que o considerávamos … excêntrico, diferente, engraçado à sua maneira, com uma filosofia de vida muito própria, dizia coisas como “Podem ir ter comigo ao meu gabinete quando quiserem. O horário com as minhas aulas está afixado na porta. Tenham em atenção que eu depois de acabar as aulas preciso de 2 horas só para mim, para refletir e descansar. Nesse período estou no meu gabinete mas não recebo ninguém!” Na altura, achava que era apenas mais uma das suas pancas mas agora, enquanto professora, percebe-o perfeitamente e procuro colocar em prática algo semelhante.

Recordo também o seu discurso sobre quanto mais pequenas fossem as crianças mais deveriam ganhar os seus educadores/professores e acrescentava com um sorriso matreiro ” Reparem que contra mim falo! Como professor universitário, estou no topo da tabela salarial!”. Argumentava que quando as crianças são pequenas, as educadoras de infância e os professores são as figuras centrais do seu dia, tendo um papel verdadeiramente importante numa fase do seu desenvolvimento em que são verdadeiramente curiosas e genuínas, onde absorvem tudo como esponjas: os exemplos, as histórias que contam e como as contam, a ênfase que dão a determinadas cenas, as expressões que utilizam, a forma como reagem, o que criticam e elogiam, etc. A fé, no conhecimento das suas educadores/professores, é inabalável, estão sempre certas e ai de quem experimente a afirmar o contrário! São as maiores e as melhores do mundo! Na sua ótica, a partir dos 10/11 ano, a forma como as crianças veem o professor muda radicalmente, também derivado do facto de passarem a ter vários e, naturalmente, fazerem comparações. Rematando a sua intervenção com “Olhem o meu exemplo, professor universitário, marcarei a vossa existência? Obviamente que não, ou muito dificilmente! Procuro transmitir-vos alguns dos meus saberes, mas a vossa maneira de ser, a vossa personalidade, a forma como arrumam esse conhecimento no vosso sistemas de valores nada tem a ver comigo, nesse campo o meu papel é nulo! Já o papel de um educadora de infância ou professora primária é fundamental neste mesmo pontos para quase todas as crianças que lhes passam pelas mãos.”. Enquanto mãe concordo totalmente com ele e infelizmente, tal como ele, contra mim falo, enquanto professora!

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Pássaros feridos

“Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade do que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os ramos cruéis, empala-se no espinho mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo do que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro detém-se para o ouvir, e Deus sorri no Céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento… Pelo menos é o que diz a lenda”.

                                    in Pássaros Feridos de Colleen McCullough

Tenho gravada na memória uma única cena da série que passou nos anos 80, baseada neste livro: uma menina, dos seus 10/11 ano, dirige-se chorosa ao padre dizendo algo como “Acho que estou a morrer! (…) Estou a deitar muito sangue!” e de o padre, depois de algumas perguntas, perceber que a mãe não lhe havia explicado, elucidando-a de seguida sobre este “novo” ciclo sangrento mas integrante da sua vida enquanto mulher. A memória é uma cena marada, não me lembro da história, das personagens, de ter sequer visto algum episódio … só desta cena, era bem pequena na altura, devo ter achado aquilo meio surreal, tanto que não me esqueci! Agora que ando a ler o livro, serão outras as “cenas”, num âmbito diferente, que irei reter para mais tarde recordar!

“Não temos tempo para fantasias, deixemo-nos de chinesices!”

Expressão do professor mais caricato que tive no secundário, talvez do melhor! É uma expressãonos que                     utilizo amiúde, o sorriso é inevitável em quem a ouve pela primeira vez. Por aqui teremos fantasias, muitas, da pequenada da casa, poucas chinesices, espero, as aventuras, algumas das muitas, que vivemos em família, o que nos desperta os sentidos, a atenção ou nos põe as emoções à flor da pele. Ou seja, deixando-nos de fantasias e chinesices, uma amálgama de cenas e coisas que fluem ao sabor dos mares por onde vamos navegando! Aviso à navegação feito, para que não possam alegar que não sabem ao que vêm!

Nota

O morceguito e a fé inabalável na nossa professora

Final de ano letivo, época de testes, já cheirava a férias, tivemos um furo, um feriado, como lhe chamávamos na altura,que bem que sabiam anunciados pelo famoso 2º toque e dos gritos eufóricos da malta. 
Decidimos ir dar uma volta ao jardim, em frente à escola, no tempo em que “circulação” de crianças não envolvia grandes perigos nem medos. No regresso, avistámos, no passeio, caído um morcego bebé, vivo e desorientado. Era bem pequenininho, cabia em menos de metade da nossa pequena palma da mão, ainda não sabia voar. Achámos que estava condenado a morrer se o deixássemos ali. Com ele na mão, não sabíamos muito bem o que fazer para salvar o pequeno bichinho mas abandoná-lo à sua sorte não era um opção que considerássemos. Até que alguém diz “Já sei, já sei! A nossa professora de Ciências Naturais! De certeza que ela sabe o que devemos fazer para o ajudar! Vamos levá-lo a casa dela!”. Todos sabíamos que ela morava em frente à escola, tocámos na 1ª campainha, alguém abriu a porta, os tempos eram, definitivamente, outros, e fomos informados pela sua vizinha qual era a casa da “senhora professora”. Subimos, apressadamente, as escada, morceguito nas mãos, e batemos eufóricos à porta. A nossa querida professora abre a porta e fica a olhar para nós com uns olhos arregalados de espanto “Olá! Passa-se alguma coisa? Precisam de ajuda? Estava a corrigir os vossos testes …”, olhando paras a nossas caritas ansiosas, de putos de 7º ano a pensar se teríamos tomada a decisão certa. Mostramos-lhe o morcego, a quem ela fez, sem hesitações, uma pequena festa e, respirando de alívio, contamos-lhe onde o tínhamos encontrado e os nossos receios. Ela foi buscar uma pequena caixa para colocarmos o morcego. Perante os nossos olhares esperançadas, informou-nos “À noite, vou ao jardim deixá-lo mas, provavelmente a mãe vai rejeitá-lo, podemos, no entretanto, tentar dar-lhe umas gotas de leite que ele também deverá rejeitar. Não há muito mais que possamos fazer por ele mas podemos tentar!”. Deixámos a nossa professora com os nossos testes e o morcego em mãos, com a noção de missão cumprida. Já a nossa jovem e querida professora, muito provavelmente, acabara de viver um (ou o) dos momentos mais insólito da sua, ainda breve, carreira de professora de Ciências Naturais. No dia seguinte, perguntámos à nossa professora não pelos testes mas pelo morceguito ao que ela respondeu, sabiamente, sorrindo “Deixei-o no jardim, como vos tinha prometido, fizemos tudo o que havia e podia ser feito, agora é deixar a natureza seguir o seu curso!”. 
Relembro este episódio como se fosse hoje, há momentos, pessoas e bichos que nos ficam na memória! Aposto que a nossa professora também se recorda deste nosso episódio, apesar de não a vermos há anos :).